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Eu pensava que era pra sempre

19 de dezembro de 2018
Tempo de leitura: 2 minutos

Marcelo Oliveira

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Quando eu era criança, tinha um amigo que se chamava Eduardo. Éramos grudados, amigo de coração, de ver televisão, de brincar e de compartilhar segredos. Eu e ele criamos nossa própria língua pra nos comunicarmos, ele era surdo e ainda não sabia libras.

Um dia, a gente fez um Jaraguá, um tipo de boneco gigante em formato de girafa, sabe? Comprei um tecido florido pra fazer a roupa do bicho, pintei de preto a cabeça de madeira e coloquei seus dentes afiados de frasco branco de água sanitária. Escondidos de meu pai, eu, Eduardo, e mais três crianças saímos pelas ruas de Arcoverde pedindo dinheiro. É que meu pai não queria que seu filho estivesse pela rua pedindo “esmola”.

Eduardo ficava dentro do Jaraguá enquanto eu e os outros batíamos latas cantando: “O Jaraguá quer dinheiro, quem não dar é pirangueiro”. Depois de algum apurado, sempre com muito cuidado pra não ser visto, lá por volta das 11h da manhã, na praça principal do bairro, outras duas crianças que não estavam na brincadeira resolveram assaltar nosso dinheiro.

Nossa, a confusão foi feia! Entramos em briga, não deixamos levar nossos trocados e a fofoca correu solta pelo bairro. Daí que meu pai chegou, acabou entendendo e tudo acabou bem.

Eu pensava que minha amizade com Eduardo fosse pra sempre. E quando a gente criou cabelo no sovaco, bigode, espinha, pelos nas pernas, enfim, depois de 14 anos, tivemos que nos despedir. No dia da despedida, minha mãe fez sopa e nos chamou pra comer. Molhamos toda a comida com nossas lágrimas.

Já passei por outras despedidas: do meu periquito, do meu gato, da minha casa do sertão, da minha escola, do meu professor de teatro e, essa semana, me despedi de C.

Conheci C. no Hospital da Restauração. Eu (Dr. Marmelo), Dr. Gonda e Dr. Lui ficamos parados olhando pra criança da porta da enfermaria, era nosso primeiro encontro. C. é uma criança de aproximadamente 9 anos, com uma trança no cabelo e com síndrome de Down.

Ela nos olha da cabeça aos pés e sempre compartilhava com a mãe suas descobertas em nossas roupas. C. é boba que nem a gente, vê o mundo de cabeça pra baixo e organiza ele como bem quer. Ela controla sua mãe no telefone, gosta de ver seu lençol de flores apitando e ainda olha para as coisas com a surpresa de quem vê tudo pela primeira vez.

Essa semana, C. estava na maca, deitada, indo pro Bloco Cirúrgico. Desejamos sorte na vida e cantamos pra ela. Ela acenou com sua mão.



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