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Uma homenagem ao mestre Antunes Filho

6 de maio de 2019
Tempo de leitura: 2 minutos

Doutores da Alegria

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Divididos entre os palcos de teatros, os corredores de hospitais e as salas de aula, os palhaços do Doutores da Alegria são, antes de tudo, atores e atrizes de gerações variadas que carregam em sua formação artística nomes do teatro nacional.

José Alves Antunes Filho, que faleceu nesta semana, foi um deles. Um dos diretores de teatro mais marcantes do cenário paulistano e nacional, Antunes comandou grandes atores nas décadas de 60, 70 e 80 e teve coragem de inovar em uma época em que diretores de teatro brasileiros começavam a ocupar um espaço que pertencia a estrangeiros.

Inspiração para muitos dos artistas da associação Doutores da Alegria, Antunes permanecerá vivo através do legado que deixa para o teatro brasileiro e para os artistas que bebem de sua fonte inesgotável.

Foto: Gui Mohallem (Veja SP) | Foto cabeçalho: Patricia Santos (Estadão Conteúdo)

“Antunes Filho morreu. Aos 89 anos, planejando um novo trabalho.

Era um diretor de teatro rigoroso e inventivo. O teatro era o seu meio de expressão, a arte era a sua finalidade. E como a vida dele significou essa procura!

Os mestres vão nos deixando, e nós vamos ficando por aqui, mais tristes, mais pobres. Mais desconfiados de nossa capacidade de criar, apaixonar e resistir através da Arte.

As plateias de Antunes Filho tiveram o prazer de ver tanta coisa, alimento para a alma que dura uma vida inteira!

Quem consegue esquecer o tango solitário do Eterno Retorno? Ou a exuberância poética de Romeu e Julieta ao som dos Beatles? Pode tamanha perfeição? Onde o clássico e o popular são um só. Como pretendia o amor de Romeu e Julieta!

Viajamos com Macunaíma, nosso heroi sem caráter, por tantos Brasis. Como podia num palco caber tantas imagens? A cachoeira chorosa, perdida de amor, trazia a mata inteira, o rio… e era só uma atriz, com poucas folhas no corpo e uma pequena cuia d’água!

Ou o coro divertido, um pequeno cardume de gente que passava amontoado, cantando a marchinha “Quem foi que Inventou o Brasil”, evocando um Rio de Janeiro irreverente e carnavalesco ou a sisuda São Paulo – o mesmo cardume, agora com guarda chuvas e jornais.

Enfrentamos as estátuas nuas, belas, misteriosas que falavam de uma elite gulosa, devoradora, cruel. E ainda assim havia esperança, Macunaíma esquece quem é e morre devorado pelo Yara, mas é resgatado, sobe por escadas trazidas por operários para se tornar uma estrela, um guia.
E como esquecer o prólogo de Vereda da Salvação, numa cena silenciosa que evocava os 111 mortos do Carandiru? A realidade batia em nossa cara e era ainda mais Arte!

Antunes se foi, a morte é concreta, a beleza dela é justamente nos tornar o que fomos. Antunes é inspiração e há muito trabalho pela frente. Que seja Arte.”

[Homenagem de Soraya Saide, atriz, palhaça, artista formadora da Escola e integrante do Doutores da Alegria há 26 anos]



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