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A tal da realidade

1 de agosto de 2013
Tempo de leitura: 2 minutos

Doutores da Alegria

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Desde a metade do mês começamos a atender as crianças, acompanhantes e funcionários que transitam pela nova UTI infantil do Hospital Municipal do Campo Limpo. Ainda estamos testando qual o melhor horário para se passar por lá: antes ou depois do PS? Antes ou depois do sexto andar? Antes ou depois do almoço?

Vale lembrar que o berçário também faz parte desse itinerário. É verdade que no primeiro semestre estivemos ausentes dali por mais de um mês por causa da violenta bactéria KPC. Nos meados de maio voltamos a dar nossas caras aos recém-nascidos. Nosso horário de passagem por lá é mais rigoroso do que o de outros setores. É que lá o “psiu” tem hora certa pra começar. E uma vez começado, nem o mais silencioso dos palhaços tem o direito de entrar ali. 

O número de crianças atendidas por lá também é bastante grande. Raramente abaixo dos 20. A grande maioria delas está recolhida em seus “ninhos de plástico”, e as da UTI, além do “ninho”, estão enlaçadas por cabos, tubos e fios, rodeadas de luzinhas e de um incessante bip-bip. Geralmente estão dormindo, o que não as impede de receberem, mesmo que à distância, a doçura da voz e do violão da Dra Emily. 

Os funcionários do berçário, assim como os acompanhantes, parecem ter outro ritmo, ou pelo menos, uma outra sonoridade: tudo parece mais suave. O tom das vozes é delicado e até o choro dos bebês é um choro miniatura. Então, entre uma música e outra, acabamos por trocar um dedinho de prosa com um pai aqui, uma mãe ali, uma enfermeira acolá. Fato que muito nos agrada. 

E olha que curioso: no meio de tanta paz e tranquilidade, ficamos sabendo que alguns dos bebês do berçário – vários, infelizmente – já são protagonistas de histórias de arrepiar a alma. 

Aquele ali, vejam vocês, é o primeiro filho de uma mulher madura, com ar responsável e tudo… Mas que rejeitou a criança. Do lado dele, aquele todo fofo, é filho de uma mãe viciada em drogas. Pariu e sumiu. Aquele outro foi achado na caçamba…

Na caçamba?, perguntamos estarrecidos. 

É, na caçamba… com a placenta e tudo.  

E de repente, o que era pura poesia foi se transformando em um filme de horror. Antes fosse um filme. 

Ao invés de cinema, vimos uma fenda se abrindo na leveza daquele ambiente para lembrar-nos que a tal da realidade é um chicote arisco: quando você menos espera, ela estala na sua cara. Fica a pergunta: quando atos como esses se repetem incansavelmente numa mesma parcela da cidade durante anos a fio, não está na hora de se perguntar se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis? 

A resposta nós já sabemos: é não. 

Então, resta-nos a pergunta “por que não?” Por que uma parcela da cidade é tão menos favorecida social e economicamente do que outra? Porque o país é tão desigual? Também já sabemos que a pergunta é antiga. Mas a busca por soluções tem que ter o mesmo frescor e vitalidade de sempre. 

Enquanto isso, os bebês do berçário do Campo Limpo emitem seus primeiros gritos, esboçam seus primeiros gestos, abrem os olhos, ganham peso e, muito em breve, nos brindarão com seus primeiros sorrisos.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Dra. Emily (Vera Abbud)
Hospital Municipal do Campo Limpo
Junho de 2013 



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bebês, berçário, Brasil, proteção, soluções sociais

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