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Uma conversa além da língua

13 de março de 2020
Tempo de leitura: 2 minutos

Gabriela Zanola

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Lá no hospital tem uma profissional que fala uma língua que poucos ali falam. Eu conheço um pouquinho dessa língua também, o que tem sido suficiente para eu ser a porta voz, literalmente, dela. Vou apelidá-la de Alice.

Você deve estar se perguntando que língua é essa, né? Explico: Alice tem uma deficiência auditiva e se comunica através da Língua Brasileira de Sinais.

Ela trabalha no setor da limpeza do hospital e sempre nos encontramos na UTI infantil. Com ela sempre está a mesma equipe médica, ou seja, todos ali se veem todos os dias e se conhecem bem. Será?

Digo isso porque outro dia, ao entrarmos na UTI, Alice passava um pano no chão, com um sorriso de orelha a orelha. Assim que me viu foi logo cumprimentou com o sinal de “bom dia”. Eu respondi e perguntei se ela estava bem. Ela disse que sim e desejou bom dia para mim. As pessoas que ali estavam acompanharam a conversa através dos sinais e vieram à minha procura.

– Ela é surda de verdade?
– Sim.
– Nossa! Eu não sabia que ela era surda!
, respondeu uma enfermeira espantada.
– E também encontro com ela aqui todos os dias e não sabia disso!, lamentou a médica.
– Pois é… ela é surda!, reforcei.

Várias perguntas se seguiram sobre como falar algumas palavras em LIBRAS. Expliquei que sabia bem pouco e que talvez fosse legal aprender com a Alice – que, nesse momento, havia saído da UTI.

Uma das médicas sabia seu próprio nome em LIBRAS e me mostrou. Eu corriji uma letra ou outra e aproveitei para explicar um pouco sobre os sinais. Que cada palavra tem um sinal e que nossos nomes também recebem sinais pelos surdos e surdas – assim, depois de um tempo de relação, facilita a comunicação para poderem se referir a certa pessoa e não ter que fazer a datilologia.

Nesse momento Alice entra na UTI. Uma ideia veio em minha cabeça. Trouxe ela para a roda de conversa.

Contei para ela que a equipe não tinha nenhum sinal para seus nomes e perguntei se Alice poderia dar o sinal para eles. Ela disse que estava com vergonha, mas topou. E assim, timidamente, foi dando um sinal para cada pessoa. A equipe agradeceu, em LIBRAS, o “presente” que ela havia acabado de dar a todos.

Só que esse negócio de dar sinal pegou, o assunto correu pelo o hospital e, duas semanas depois, estávamos saindo da UTI quando Alice veio pediu um favor. Outras pessoas que trabalhavam na UTI não ganharam o sinal naquele dia e ela gostaria de presenteá-las também. Embarquei no jogo!

E dessa vez Alice não estava com vergonha, muito pelo contrário, estava até tirando sarro da cara dos colegas: o sinal do Dr. Dus’Cuais, meu parceiro besteirologista, tinha o mesmo significado da palavra “bobo”. Eu preferi dizer a ele que Alice o estava chamando de “bonito”, e ele ficou feliz da vida com isso.

Foi sinal pra todo lado. Percebi que Alice estava muito mais à vontade, segura e contente. Ela agora fazia parte de verdade da conversa na UTI.



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