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Giudete, Gerônimo e esse diálogo lento chamado arte

11 de novembro de 2019
Tempo de leitura: 2 minutos

Vera Abbud

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Giudete é faxineira no Hospital Santa Marcelina. Do outro lado da cidade, Gerônimo é faxineiro no Hospital do Campo Limpo.

Gerônimo tem um talento especial para cantar. Quem assistiu ao nosso espetáculo “Aquele Momento Em Que…” certamente reconhecerá o Gerônimo daquela cena em que duas palhaças (Tereza Gontijo e Sueli Andrade) se unem a ele, protagonizado por um palhaço (David Tayiu) para fazer um verdadeiro show musical no hospital.

Quando vimos essa cena no teatro, lembramos na hora da Giudete. Poderíamos transpor a cena do espetáculo para a vida real. Foi intuição da minha parceira de trabalho Layla Ruiz (a Dra. Pororoca), pois a Giudete nunca cantou para nós, nem mesmo acompanhou as músicas que cantamos para ela. Mas assim como o Gerônimo, a Giudete tem um carrinho de limpeza que parece uma caixa de som e tem uma vassoura acoplada ao carrinho que parece um microfone.

Então dia desses encontramos a Giudete no corredor com o seu equipamento. Pororoca testou o microfone-vassoura e estava funcionando. Perguntamos se ela sabia cantar uma música, ela riu.

– Não sei, não!, disse tímida.
– Nenhuma? Nenhuminha?, insistimos.
Giudete fez um não com a cabeça.
– Nem do Roberto?
– Do Roberto…

Aquilo era um sim. Soltamos a música do Roberto Carlos no microfone e a Giudete sabia mesmo! Cantou lindamente com a gente! Então fomos fazer a apresentação da música no quarto em frente, onde as crianças olhavam curiosas. Apresentamos com direito a mães acompanhando no refrão: “Eu te amoooo, uhuuu, eu te aaamo, uou ou ou ou ou!” e aplausos no final.

Giudete voltou sorrindo para o trabalho. Quando íamos saindo, levantou a cabeça do chão, onde olhava a vassoura que varria.

– Sabe, eu tenho um microfone em casa… – ela sorriu e voltou a varrer.

O espetáculo foi uma inspiração para nós. O hospital nos motiva a fazer um espetáculo, pois são demasiadas as emoções. E os espetáculos que vemos ou fazemos alimentam o hospital. A arte é essa conversa lenta, sabe? Quando assistimos a um show, um espetáculo, uma dança ou qualquer atividade cultural que mexe com a gente de maneira inexplicável, vamos refletir.

Por que me alegrei? Por que me lembrei disso? Por que esqueci aquilo? Como ainda não tinha pensado nisso? Muitas coisas mexem com a gente. Mas a cultura nos transforma sem direção.

Esses dias veio essa poesia pelo Facebook. “Cultura é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. Revela-se no modo de falar, de sentar-se, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar”. Do José Paulo Paes. Gostei.

A cultura um diálogo bem diferente da velocidade das redes de hoje. Que nos informam. Nos conectam. Mas nos direcionam para quem pensa, sente e acredita nas mesmas coisas que a gente. São monólogos coletivos. Nos transformam pouco. Nos dão revoltas e alegrias instantâneas. Ou talvez não saibamos ao certo onde essa velocidade toda vai nos levar…

Através da arte, entramos em um balão de ensaio, num experimento sem saber onde vamos chegar. Sem obrigação de resultados. “Inestatisticável”. É um diálogo lento que levamos para casa, para nosso convívio e para dentro da gente. E, se nos transforma, transforma o que está ao redor.



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