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Como assim, bebê?

18 de setembro de 2017
Tempo de leitura: 1 minutos

Greyce Braga

Atriz e advogada. Atua como Dra. MonaLisa na Doutores da Alegria, em Recife, desde 2007.

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A rotina da Besteirologia é não ter rotina. Cada dia é cada dia. A gente se prepara para fazer uma porção de coisas e aí o hospital “dá uma rasteira na gente” e muda tudo que foi programado.

Não aparece oportunidade para cantar a música que você ensaiou todo o final de semana, mas alguém pede aquela que você cantou a última vez quando tinha dez anos de idade. A criança que você ia dar alta já não está mais na enfermaria, foi pra casa. O médico que você investe há meses na paquera muda de plantão e já não o encontra mais dia nenhum.

É assim… Haja desapego. E que bom que é assim! Não podia ser diferente, porque a Besteirologia é igualzinha à vida. A gente pensa que está no comando, mas no fundo não comanda nada.

Essas lições aprendemos todos os dias pelos corredores, nas enfermarias, nos ambulatórios, nas emergências, nas copas e cozinhas. Vocês querem ver como funciona?

Outro dia, depois de muitas idas e vindas, conseguimos alistar 5 mães com 5 bebês acoplados para compor um coral de frevo. Às vezes não é fácil conseguir adesão espontânea, então comemoramos muito quando formamos todos os naipes! Tudo estava pronto para finalmente começar o ensaio do coral: cada mãe com seu bebê, todas alinhadas, afinadas, preparadas. Só faltava ensinar a música.

Bem nessa hora um dos bebês tomou o leme de nossa mão e, como um pirata, tomou de assalto o controle do navio. Ele desatou o mais retumbante “UÑÑÑEÉÉÉÉ” já ouvido no universo, assim, do nada. Em um segundo ele estava ótimo, quietinho, quentinho, embaladinho no colinho e no outro estava igual o Capitão Gancho levando nosso coral com leme, vela e tudo para o fundo do oceano.

Barão de Lucena - Lana Pinho-37

Como assim, bebê? Não dá pra ensaiar com essa sirene ligada.

Bom, tudo perdido, toda a mobilização, todo o convencimento das mães, tudo indo choro abaixo… Não, claro que não! Fizemos uma “pequena adaptação” no frevo e a partitura das mães e dos bebês passou a ser exatamente essa. Elas faziam e nós fazíamos GUGU-DADA! Formou-se aí o primeiro frevo em língua de bebê.

– UÑÑÑÉÉÉÉÉ, faziam as mamães.
– GUGU DADÁ, fazíamos nós.

Eita, vida velha sem controle e cheia de imprevistos. É assim nas pequenas coisas e nas grandes também. Dá medo perceber que o leme desse navio nunca está realmente em nossas mãos.



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Greyce Braga

Atriz e advogada. Atua como Dra. MonaLisa na Doutores da Alegria, em Recife, desde 2007.


Postado em:

Histórias de hospital

Tags

bebê, choro, improviso, rotina

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