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As vidas de dentro e de fora do hospital

5 de setembro de 2019
Tempo de leitura: 2 minutos

Sueli Andrade

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Eu vou ao Instituto da Criança todas as segundas e quartas-feiras. Depois de caminhar um pedaço, pegar metrô lotado, fazer baldeação para outro metrô mais lotado ainda e caminhar mais um pedaço, paro debaixo de uma árvore.

É uma goiabeira que fica em frente à banca de revistas, bem perto da porta de entrada do hospital. Ali aproveito para fumar um cigarro antes do trabalho. Eu sei que não é certo, mas…

Passo alguns minutos ali e fico pensando no que há de diferente e no que há de igual no comportamento das pessoas dentro e fora do hospital.

Fora do hospital

Mães apressadas, com suas crianças no colo ou as acompanhando a passinhos rápidos, fazem uma pequena pausa para comprar salgadinho, refrigerante ou para fazer uma recarga no celular.

Dentro do hospital

Mães em um longo estado de pausa, com suas crianças no colo ou as acompanhando desde seus leitos a movimentos lentos, que não veem a hora de sair correndo dali.

Fora do hospital

Médicos e médicas, enfermeiras, pessoal da manutenção e limpeza, mais relaxados, tomam algum tempo para, também, fumarem um cigarro. E às vezes se disponibilizam para uma conversa antes de seguirem suas vidas fora do hospital.

Dentro do hospital

Profissionais de saúde (todos acima) totalmente envolvidos com seus trabalhos, normalmente mais apreensivos, mais apurados, muitos atendimentos, plantões… Às vezes se disponibilizam para uma conversa antes de seguirem para a correria cotidiana do hospital. 

Fora do hospital

Eu, “à paisana”, observo o vai e vem das pessoas, tentando adivinhar o que elas estão pensando e sentindo. De vez em quando tiro uma ou outra goiaba que cai pela ação dos pássaros que param para se alimentar, prevendo que alguém possa vir a escorregar. Às vezes dou uma informação a alguém que está visitando o hospital ou a cidade pela primeira vez. Às vezes apenas fico lá, absorta em meus próprios assuntos. Nem sempre as pessoas me reconhecem lá fora.

Dentro do hospital

Eu, palhaça, me encontro com as pessoas (mães, pais, equipe do hospital, meus parceiros de trabalho e, sobretudo, as crianças), tentando manter um estado de atenção a todas as manifestações que possam advir desses encontros. Às vezes faço rir, às vezes compartilho uma dor, às vezes falo muita besteira, às vezes apenas fico lá, absorta na graça do meu parceiro. Sou bem conhecida lá dentro.

O cigarro acaba. Hora de ir para dentro do hospital ser Greta Garboreta. Às vezes, dentro eu dou um fora e fora eu dou uma dentro. Às vezes o fora se mistura com o dentro. Às vezes o dentro está do avesso e o fora mexe com o dentro.



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