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A fofoca sobre o pai de Gabriel na enfermaria

5 de dezembro de 2022
Tempo de leitura: 3 minutos

Marcelo Oliveira

Arte educador, ator, palhaço, diretor e dramaturgo. Atua como Dr. Marmelo na Doutores da Alegria, em Recife, desde 2010.

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– A gente pode entrar?

Da porta da enfermaria, os dois palhaços falam com os pacientes e acompanhantes.

Pode! – responde Gabriel, uma criança de aproximadamente 8 anos. Já faz umas semanas que ele deixou a cidade de Cabrobó, Sertão de Pernambuco, para tentar uma cirurgia na capital pernambucana. Gabriel é daquelas crianças grandes com sorriso inocente. Nesse dia, ele estava só, sem seu pai. Fomos direto ao leito dele.

– Cadê seu pai? – perguntou Marmelo desconfiado, como se fosse fazer uma fofoca e ninguém pudesse ouvir.

– Sei lá. Deve estar andando por aí.

– Sabe o que é, Gabriel? A gente viu seu pai no corredor e… pensando bem, melhor não falar, vamos embora.

– Agora eu quero saber, fala! – ordenou a criança.

– Não sei, Gabriel, se a gente tem que falar… vai que você fica constrangido…

– Se a gente falar você promete que não vai falar nada para seu pai?

– Prometo.

Em formato de cruz, Gabriel leva seus dois dedos indicadores à boca e jura segredo diante dos palhaços.

– Prometo silêncio.

– É que a gente vinha andando pelo corredor e vimos cair uma coisa no chão e a gente acha que é do seu pai.

– O que foi que vocês viram?

– Melhor você falar, Micolino.

– Não, Marmelo. Fala você.

– Eu? É… não vou falar, mas vou mostrar.

Marmelo tira do bolso, com muito cuidado e atenção para não ser pego no flagra, uma calcinha bundex.

O que é isso? – perguntou a criança.

– É uma calcinha fofinha. Tem espuma.

– É Gabriel, seu pai deve usar para aumentar a bunda dele.

– Não pode falar bunda aqui, Micolino! – reprimiu Marmelo.

– E eu falei?

– Sim, você falou bunda.

– Quem falou agora foi você, Marmelo.

– Eu? Falei o quê?

– Bunda.

– Olha aí, você falou bunda novamente, Micolino.

– Chega! Essa calcinha fofinha não é do meu pai.

Da porta, sem que os palhaços percebessem, o pai do Gabriel, Seu Antônio, de 1,60 de altura, observava a conversa.

– Essa calcinha é do seu pai, Gabriel. Olha só o formato da espuma. Forma uma bundinha.

Os palhaços e a criança caem na gargalhada. Gabriel percebe a presença do pai.

– E outra coisa, eu pensava que seu pai malhava bumbum. Mas era espuma.

Com um sorriso no rosto e olhando para o pai parado na porta, Gabriel fala:

– Eu acho que meu pai não vai gostar de saber que vocês estão mentindo, falando por aí que ele usa calcinha bundex.

– Mas é dele, eu juro. Minha que não é.

– E outra coisa, seu pai não tem nem tamanho para brigar com a gente.

– Pois é, a gente não tem medo dele e ninguém aqui vai fofocar para ele.

– Isso, Marmelo. Ele não precisa saber que a gente falou para todo mundo que ele deixou cair sua calcinha bundex.

Seu Antônio, depois de ouvir tudo da porta da enfermaria, entra cuidadosamente para não ser visto e toca no ombro dos palhaços.

– Olá, palhaços!

Marmelo e Micolino se assustam e tentam esconder a peça de roupa. Nervosos, com as pernas tremendo, os dois besteirologistas falam com o pai da criança.

– Oi, Seu Antônio… Tudo bom? A gente já estava de saída.

– É, estávamos conversando com seu filho… e… já vamos, acabamos de fazer uma consulta… é… é… enfim, vamos embora.

Gabriel se apressa para contar tudo ao pai.

– Pai, eles…

Os doutores palhaços interrompem a criança:

– Nossa, Gabriel está ótimo! Tiramos muita caspa no joelho dele.

– Mentira, pai… eles…

Micolino interrompe a criança:

– Sem falar no chulé encravado que resolvemos… Bom, temos que ir.

Seu Antônio segura os dois palhaços pelo braço.

– Voltem aqui! Eu ouvi tudo da porta.

– Foi Micolino, Seu Antônio.

– Não, foi Marmelo.

– Foram os dois, painho! – disse Gabriel excitado com a situação.

– A gente não falou nada, Seu Antônio. Por favor, deixa a gente ir, não faz nada com a gente

– Pai, eles chegaram aqui e falaram que o senhor usava calcinha bundex.

– Cadê a calcinha? Coloque ela aqui na minha mão.

Marmelo tira a peça de roupa de dentro do bolso e entrega para Seu Antônio. O pai, por sua vez, analisa a calcinha com um sorriso de canto, olha para o filho e diz:

– Gabriel, eu vou provar. Vai que fica legal.

A criança sem acreditar e perplexa prepara logo o celular para gravar. Seu Antônio vai até o centro da enfermaria, se apoia em uma cama e veste a calcinha bundex por cima da bermuda.

– Marmelo e Micolino, toquem uma música para eu desfilar.

– O senhor quem manda!

Os palhaços cantarolaram uma canção e seu Antônio, já com a calcinha bundex, coloca a mão na cintura e desfila rebolando pela enfermaria. Gabriel se contorcia gargalhando com o pai.

‌- Arrasou, Seu Antônio!

‌- Gostaram? Mas olha, não é minha. Ficou apertada.

‌- Percebemos. Mas valeu a tentativa, Seu Antônio. O senhor agora pode tirar e nos entregar. Vamos procurar pelo dono.

‌Os palhaços se despedem da enfermaria. Já no corredor, escondido de Gabriel, Seu Antônio corre pra falar algo com os palhaços.

‌- Meninos, muito obrigado. Faço isso porque gosto de ver meu filho sorrindo.

‌- Seu Antônio, eu queria ter um pai igual ao senhor.

O pai de Gabriel esconde o rosto e derrama algumas lágrimas. Até a próxima, Seu Antônio!

E saíram os dois besteirologistas rebolando de felicidade, afinal, rebolar faz bem.​



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Marcelo Oliveira

Arte educador, ator, palhaço, diretor e dramaturgo. Atua como Dr. Marmelo na Doutores da Alegria, em Recife, desde 2010.


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