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Toca um Amado Batista, palhaço

20 de outubro de 2020
Tempo de leitura: 1 minutos

Nilson Domingues

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No início, confesso que estava com medo de visitar pacientes virtualmente, pois era diferente de tudo que a gente já tinha feito. Aos poucos, fui ficando mais à vontade e percebendo que o celular virou uma espécie de parte do nosso corpo, incluindo o corpo dos palhaços.

As consultas são mais tranquilas do que eu imaginava porque as pessoas participam bastante. Na verdade é bem divertido. Claro que não substitui a presença, o “téte a téte”, mas pelo menos é uma maneira de estarmos conectados ao nosso ofício, aos parceiros do hospital e aos pacientes.

A equipe de Psicologia atua como nossas pernas dentro do hospital, levando os aparelhos aos quartos e perguntando aos pacientes se querem uma consulta com os Doutores da Alegria. Quase todo mundo aceita. Alguns dizem que não querem aparecer, pois não estão em sua melhor forma. A gente respeita.

Mas teve um dia curioso com uma senhora na enfermaria. A Greta, minha parceira palhaça do outro lado da tela, começou: “A gente tá passando um ultrassom aqui e a senhora não precisa aparecer. Pode ser assim, a senhora só ouvir?”. A paciente, meio desconfiada, respondeu que podia. Eu disse então que éramos especialistas em ultrassom.

Pausa para explicação: ultrassom, na linguagem dos besteirologistas, se trata de um exame com música feita ao vivo. Fim da pausa.

“A senhora pode dizer um som gosta de ouvir?”, perguntei. Ela queria ouvir um hino. Não perdi tempo e comecei os primeiros acordes do hino do Timão, claro. “Saalve o Corinthians…”. Mas ela subitamente interrompeu a cantoria –e não era por ser palmeirense e coisa e tal.

“Não toque hino, não. Toque Amado Batista.”, pediu ela. Silêncio. Eu não conheço nenhuma música do Amado Batista.

Mas recordem: ela não estava me vendo na tela e vice-versa. Só nós escutávamos. Dei uma enrolada, dizendo que fazia cover de Amado Batista por aí, enquanto procurava uma música dele no YouTube. Achei “Feiticeira”! E pronto: deixei a “Feiticeira” tocando e percebi que a paciente, que não queria interagir, cantava a música.

Assim que acabou, a senhora agradeceu. “Você canta muito bem, sua voz é parecida com a do Amado Batista, rapaz”. E assim, às vezes no escuro, às vezes no improviso, a gente vai descobrindo táticas para se comunicar nessa nova realidade tecnológica.

Espero que em breve possamos nos encontrar nos corredores do hospital para exercer nosso ofício in loco. Até lá, prometo aprender a tocar várias músicas do Amado Batista.



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