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O que eu aprendi com a gravidez de uma menina

15 de julho de 2019
Tempo de leitura: 7 minutos

Tereza Gontijo

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Talvez nem todos saibam mas eu me tornei mãe recentemente. Em 2016 tive meu primeiro filho, um menino, e em 2018 tive minha segunda filha, uma menina. A esta altura vocês já podem imaginar como o assunto da maternidade está fortemente presente no meu dia a dia e por isso decidi que o ponto de partida desse relato seria a minha própria experiência.

Confesso que tive a expectativa de escrever um texto de impacto e inteligente, citando dados e estatísticas à respeito da mulher e das diferenças entre os gêneros no que diz respeito às políticas públicas, direitos e demais aspectos sociais e de como tudo na vida muda depois que uma mulher se torna mãe. Queria também abordar números e dados sobre esse assunto, mulher e maternidade, esperando embasar meu ponto de vista de forma mais impactante, profunda e intelectual.

O fato é que, na minha própria vida, as coisas não aconteceram assim.

Antes da maternidade eu não havia despertado interesse e atenção para estas questões, que, por sua vez, se apresentaram inegociáveis uma vez que minha vida começou a andar nesse novo trilho.
Me permito aqui um tempinho para um breve relato: eu e Monique Franco, também palhaça do Doutores, engravidamos no mesmo período, ela gestando uma menina e eu, um menino. Nos bastidores de uma apresentação da Roda Besteirológica, Monique me falava sobre questões feministas e das diferenças entre os gêneros feminino e masculino que, já na gravidez, apresentavam-se a ela pelo fato de estar grávida de uma mulher. Naquele momento, eu replicava dizendo que não via diferença entre as nossas gravidezes por causa deste “pequeno” detalhe, que as questões eram as mesmas pois estávamos esperando duas crianças, independente do sexo que tinham.

Dois anos depois, quando passei a gestar uma garotinha, tudo mudou.

Só então consegui entender o que ela me dizia naquela conversa, pois, desde a gravidez, as diferenças sócio culturais que incidem sobre o homem e a mulher já se apresentam, fazendo com que tudo mude de forma inegável. Vocês já vão entender o que quero dizer…

Quando tive meu filho, percebi pela primeira vez o abismo que separava a minha experiência de me tornar mãe da experiência do meu marido em se tornar pai. O que muda substancialmente é que, embora ambos estejam experimentando uma mudança pessoal e emocional que impacta sobremaneira nossa vida social, a mulher ainda atravessa uma revolução física, biológica e psíquica. As alterações fisiológicas e emocionais nos transtornam em um nível jamais experimentado pelo homem, nem por nós mesmas antes de engravidar pela primeira vez.

Já na gestação começamos a habitar um corpo que nunca havíamos habitado, que sofre as mais diversas alterações para suportar a geração de um bebê e, depois de nascido, as alterações necessárias para poder mantê-lo vivo, como, por exemplo, produzir leite e amamentar. Mas foi só depois de gestar uma mulher e de me aproximar pela primeira vez do termo “feminismo” é que eu pude conhecer muitas explicações para fatos que eu havia conhecido como “naturais”.

Entendam, eu sequer sabia o que era feminismo e muito menos de que eu poderia, um dia, me declarar como tal.

E é nesse ponto do texto que eu preciso parar para um esclarecimento: quando falamos em feminismo parece que estamos declarando uma “guerra entre os sexos”. Que esta palavra assusta e afasta, inclusive, as mulheres. Mas que feminismo, por definição, é “a crença de que homens e mulheres devem ter direitos e oportunidades iguais. É a teoria da igualdade dos sexos nos planos político, econômico e social”. No dicionário, a definição de feminista é: “uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”.

As formas como os grupos manifestam essa luta são diversos e podem não agradar a todos.

Mas isso diz respeito a qualquer ação, de qualquer ser humano. O que me importa é colocar luz sobre o conteúdo desta luta, sobre a filosofia que acredita na igualdade entre os gêneros, que pode (e deve) ser compartilhada por mulheres e homens que acreditem nela. Quando eu falei acima que o feminismo me ajudou a encontrar explicações para o que me parecia “natural”, eu me referia ao fato de perceber, através do feminismo, que muitos (ou quase todos) os mecanismos que diferenciam um homem e uma mulher social, cultural e politicamente são artificiais, criados pelo homem, e não naturais, ou seja, advindos da natureza.

A capacidade de geração da vida no ventre de uma mulher é natural, a capacidade de uma fêmea de produzir leite para alimentar um filhote é natural, mas o que se cria culturalmente em torno desses fatos é artificial. Porque uma mulher se torna mãe, não é natural que ela saiba e tenha que se ocupar exclusiva e inteiramente dos cuidados com os filhos.

Essas são operações que se apresentam novas à mãe e ao pai, que precisam ser aprendidas e dominadas por ambos.

Não é uma lei da natureza que determina que uma mulher, porque engravida, torna-se a principal agente do cuidar, e me parece que, se assim fosse, não seria necessário uma fêmea e um macho para gerar um filhote. Me parece ser esse um dos principais motivos que contribuem para a criação e manutenção de uma sociedade estruturalmente machista. Ao dar à luz, uma mulher deve se recolher para se recuperar do parto e alimentar a criança, resguardando sua sobrevivência. Neste período, cabe ao homem cuidar dos proventos da casa, trazendo para esse ambiente a estrutura necessária para que mãe e filho passem bem. É um sistema saudável, onde a cada um cabe um papel e uma função. Mas é apenas isso, tão logo a criança cresça um pouco, todos podem ir encontrando suas aptidões nessa nova estrutura familiar e o que ela demanda, podem ir se reconectando à vida social e as funções profissionais e se auto-reconhecendo como indivíduos diferentes, tendo se tornado mãe e pai.

A despeito disso, ao se tornarem mães, as mulheres parecem tornar-se menos capazes ou incapazes aos olhos do mercado de trabalho. Comumente perdem seus empregos assim que retornam da licença maternidade. Basta que você troque algumas figurinhas por aí para saber que essa é uma prática muito comum. As mulheres perdem oportunidades de trabalho, passam a ser menos chamadas para entrevistas de emprego, porque aquela sociedade estruturalmente machista entende que é “natural” que ela tenha se tornado o principal indivíduo capaz de cuidar dos filhos. Que agora ela, e somente ela, terá que dividir sua atenção e produtividade entre a família e o emprego.

Esse era um daqueles tópicos sobre o assunto que pairavam na minha cabeça quando eu decidi, na semana de trabalho após o Dia das Mães, indagar nas enfermarias dos hospitais quem eram “os” ou “as” acompanhantes das crianças internadas. E, sem surpresa, constatamos que a grande maioria das acompanhantes são as mães e, se não elas, as avós ou tias. Em geral, mulheres. Quando perguntávamos às mães sobre os pais, era comum que elas dissessem que eles tinham passado a noite, ou feito uma visita, mas que as acompanhantes oficiais, que assinavam a ficha da internação, que perdiam os dias de trabalho eram elas.

– É, meu marido trabalha e eu também, mas fui eu que perdi três dias de trabalho quando nosso filho precisou ficar internado, comentou uma enfermeira do setor, que há poucos meses havia acompanhado seu filho numa internação naquele mesmo hospital.

– Por quê?, perguntei.

– Não sei…, ela respondeu.

As únicas exceções que encontramos aquele dia foram dois pais que estavam com seus filhos na UTI porque a mãe estava em casa cuidando do outro filho do casal.

Trabalho no Doutores da Alegria desde 2008 e desde então, há dez anos, frequento as pediatrias duas vezes por semana.

Essa pequena entrevista foi só para comprovar o que já observamos nesses anos todos, que são as mulheres que abrem mão do seu trabalho, do seu tempo pessoal, do cuidado consigo mesmas, muitas vezes até da família ou mesmo da terra natal para se dedicarem ao cuidado com os filhos quando de uma internação.

Quando perguntamos a uma mãe o que ela tinha ganhado de presente pelo Dia das Mães, ela respondeu: “Eu queria um celular, mas ganhei um dia de descanso. Meu marido passou a manhã e a tarde aqui e eu fui para casa descansar”. Sabe, não é que eu defenda que uma mãe não deva acompanhar seu filho durante uma internação. Pelo contrário, a ela deve ser dado todo o direito e o apoio para que possa se dedicar ao cuidado de um filho doente. Mas o mesmo deveria ser feito pelo pai e o combinado sobre quem vai se ocupar dos filhos, a meu ver, deveria ser um acordo entre pai e mãe, e não uma obrigação para a mãe e uma escolha para o pai.

Não é de ordem “natural” que a mulher se torne menos capaz do que um homem, ou menos produtiva do que outra mulher que não tenha filhos, e que por isso ela deva abandonar (compulsoriamente ou por vontade própria) seu trabalho, sua carreira, para se dedicar aos cuidados dos filhos e da casa. Assim como não é “natural” que o homem precise ser o mais eficiente e o mais preparado para enfrentar o mercado de trabalho e trazer o sustento para casa. Ambos deveriam poder se dedicar ao trabalho e aos cuidados com a família por escolha e não por imposição de gênero. As atividades deveriam ser divididas por uma questão de aptidão, e não o contrário.

Reconhecer a necessidade de igualdade entre os gêneros liberta a todos, cura a todos e é uma questão pertinente a todos nós.

Quando inauguramos o segundo roteiro de trabalho do Hospital Santa Marcelina, passamos a trabalhar em quatro mulheres. Ao nos ver reunidas no dia do lançamento, um médico perguntou porque tanta mulher e eu brinquei, dizendo que era o empoderamento feminino. Ele, com indubitável desdém, respondeu: “ah, lá vem…”.

Depois tive a oportunidade de questioná-lo sobre essa frase. Ele disse que não se sentia bem com a forma como algumas mulheres lutavam por seus direitos e não concordava com algumas causas que elas defendiam. Mas ao questioná-lo se ele se sentia bem com o fato de sua mulher ter a mesma formação e profissão que ele e poder ganhar menos, ele concordou que não achava isso bom e completou dizendo que ela não ganhava menos. Disse ainda que na casa deles dividiam todas as funções domésticas e cuidados com os filhos.

Então chegamos ao ponto: isso é ser feminista, isso é acreditar na igualdade dos gêneros e querer um mundo mais igualitário e justo entre homens e mulheres.

Mais uma vez posso dizer que quanto à forma como se luta cabem discordâncias, mas quanto à causa pela qual lutamos, deveríamos estar todos juntos. O empoderamento feminino liberta a todos, cura a todos. Pensemos todos na liberdade que nossas crianças terão de serem aquilo que são e não aquilo que deveriam ser, que se espera que sejam, apenas por serem meninas ou meninos.



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Tereza sua linda….me senti honrada de ter trabalhado com vc e outras companheiras e companheiros seus. Gratidão por tudo

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