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Eu não sabia ser outra coisa que não fosse aquele abraço

10 de outubro de 2019
Tempo de leitura: 3 minutos

Juliana Almeida

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A gente se conheceu na UTI: Lumi, Dona Lumi, doutor Micolino e eu, doutora Baju. Lumi é um bebê que geralmente dormia durante nossos encontros. Vez ou outra, a gente o encontrava acordado e falava com ele, tocava uma canção bem baixinha ou contava uma fofoquinha. Sua mãe, a Dona Lumi, nos olhava com delicadeza, sorria e, com seu jeito suave, acompanhava as canções.

Depois de pouco mais de um mês, Lumi saiu da UTI e foi para a enfermaria. “Ê coisa boa!”. Festejamos a notícia.

Os encontros seguintes foram ganhando intimidade, carinho e, sem demora, uma afetividade que afagava as nossas carências. Isso porque Dona Lumi era muito terna na forma de nos olhar, sabe, era o mesmo que ver mel escorrendo do pote, tal era a doçura!

Bastava os palhaços chegarem que Dona Lumi abria um sorriso grande, bem bonitinho. Não sei nem pra quem eram mais prazerosos os nossos encontros ─ se pra ela ou se pra gente, só sei que eu me derretia. Abríamos a porta e, só de ouvir “Chegou Baju!”, o meu peito se enchia de ar, eu ganhava mais vitalidade e encontrava mais um sentido pra estar ali.

Micolino não se ressentia, dizia pra mim, todo compreensivo: “Ela ‘garrou em tu, visse?!”. Sim, tem isso. Às vezes, tem dessas de alguém “escolher” um, seja pra se afinar, seja pra aperrear. E entendemos que são variadas formas de amar.

Os meses foram se passando e o quadro de Lumi melhorando.

Bom mesmo foi o dia em que chegamos na enfermaria e vimos a cena: Dona Lumi, Seu Lumi e a irmã Lumi. Com eles, a bolsinha de Lumi e mais não sei quantas sacolas, todas cheias das coisas da Dona Lumi e do pequeno.

─ Opa! Como assim?! – quisemos saber.
─ A gente tá indo pra casa! – Dona Lumi respondeu cheia de felicidade com o pequeno nos braços. E seguiu dizendo pra família:
─ Ó, eles são meus amigos, me acompanharam esse tempo todo…

Fizemos foto, nos abraçamos, nos despedimos, a saudade se antecipou. Porém, a alegria de vê-los ir pra casa se sobrepôs. E aquele ciclo se fechou ali. Eles foram embora, nós continuamos.

Todas as terças e quintas, impreterivelmente, o trabalho acontece. Passamos pelo alojamento canguru (onde ficam os recém-nascidos prematuros), pela emergência, enfermarias, ambulatório e depois vamos a duas UTIs. Há duas semanas, em nossas andanças rotineiras, nos aproximávamos da ala vermelha da emergência e uma voz, tomada de assalto, tremulou “BAJU!………” e se abrigou em meus braços.

Era Dona Lumi com o seu pequeno ao lado. Não deu tempo de entender nada, só de permanecer ali por um bom tempo. E eu não sabia ser outra coisa que não fosse aquele abraço.

“Não deu tempo de entender nada, só de permanecer ali por um bom tempo. E eu não sabia ser outra coisa que não fosse aquele abraço.”

O choro de Dona Lumi foi acolhido pela minha echarpe enquanto eu alisava as suas costas. Duramos ali, quietinhas. Mais alguns minutos, percebi as outras duas mães que estavam nessa ala, com os seus pequenos ao lado, escoando suas lágrimas. Lá estávamos. Pensei em Micolino, o meu parceiro: “Já deve ter um tempo que estamos aqui nesse abraço… Micolino tá por onde? Deve estar, como sempre, atento e cúmplice”.

E foi isso mesmo: Micolino estava, inteligentemente, nos aguardando. Ele tem uma alma sabida e eu me senti segura de estar ali daquela forma. “Entreguei” o nosso tempo nas mãos dele e, habilmente, Micolino começou baixinho:

─ Baju, eu tô sentindo uma coisa…
─ Que coisa, Micolino?
─ Tô sentindo que preciso deixar sair…
– respondeu se contorcendo, meio sôfrego, e continuou:
─ Não tô aguentando mais, Baju, preciso expulsar essa agonia de dentro de mim…

E ele usou o artifício do pum, liberando aquela “agonia” que estava dentro dele. Eu fui me orientando para o lado dele e o removi de lá, mas, já perto da porta, não esqueci dela:

─ Vai ficar tudo bem, viu? ‘Tamo aqui.

Na outra semana, encontramos Lumi na UTI. Ele havia piorado e seu quadro era grave. O nosso coração minguou e eu vi que estava longe de cumprir a minha promessa. Parece que tinha fracassado em minha intenção. No outro dia de trabalho, já chegamos perguntando pelo pequeno – continuava mal.

Mais dias se passaram e a ansiedade angustiada de chegar na UTI só aumentava. Chegamos um dia e o leito de Lumi estava vazio. Bateu uma inconformidade meio resiliente. Contraditório, né? É, às vezes a gente fica bem misturado. Fomos até uma enfermeira e perguntamos por ele, já nos preparando pra resposta.

─ E Lumi?
─ Teve alta!

Aliviados, quase sem acreditar, dissemos: “Ê coisa boa!…”. Não vimos Dona Lumi com suas sacolas e sua família, mas ficou tudo com a gente de forma bem presente, como aquele abraço.



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Postado em:

Histórias de hospital

Tags

abraço, acolhimento, bebê, internação, mãe

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