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Dois palhaços, uma senhora e uma chalana

9 de outubro de 2019
Tempo de leitura: 1 minutos

Sandro Fontes

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Era dia de atendimento na ala adulta do Hospital Universitário. As visitas de palhaços aos adultos, que começaram recentemente neste hospital, acontecem toda semana no quinto andar. Da porta, antes de pedirmos para entrar, observamos uma senhora de idade sentada em uma cadeira e uma jovem de pé ao seu lado. O silêncio foi interrompido pelo gesto e a voz baixinha da moça:

– Ela não enxerga.

Continuamos a conversa dando valor ao exercício da palavra ao invés do jogo cênico entre dois palhaços.

– Meu nome é Sandoval, médico besteirologista, muito prazer. Dê seus comprimentos, Dr. Dadúvida!
– Eu uso sapato 40, minha cueca é tamanho G…
– Não é esse tipo de comprimento. Faça diferente, diga palavras doces.
– Bombom, algodão doce…
– Nãooooo! Diga algo que venha de dentro!
– Pum.
– Nãoooooooooo…

A jovem sorria e se animava com o diálogo besta. A certa altura percebemos que a senhora, que permanecia sentada e quieta, era sua mãe. Continuamos o papo, fizemos mais algumas tentativas e o retorno só vinha da moça. Resolvi investir na música: puxei o acorde de C, em do maior, em meu ukulelê e Dadúvida se pôs a cantar como um rouxinol.

Escolhi “Chalana”, canção composta por Mario Zan e Arlindo Pinto.

A música faz alusão às chalanas, embarcações típicas do Pantanal, e foi composta em 1943, mas também foi regravada por Sergio Reis e Almir Sater nos anos 70 e 80, lembram?

– Lá vai uma chalana, bem longe se vai, navegando no remanso do Rio Paraguai! Ah! Chalana, sem querer, tu aumentas minha dor, nessas águas tão serenas vai levando meu amor…

Foi bem nessa estrofe que começamos a ouvir uma voz rouca e baixinha. Linda-linda. A senhora embarcou em nossa chalana e fez coro, junto ao Dadúvida, com uma voz que vinha do fundo do seu coração. A jovem segurou as mãos da mãe, lágrimas brotando de seus olhos, e aquela emoção embalada pela canção nos tocou. Seguramos a voz até o final da música.

– Ah! Chalana, sem querer, tu aumentas minha dor, nessas águas tão serenas vai levando meu amor!

Saímos do quarto lentamente e com a sensação de termos ganhado um dos maiores presentes que a vida de artista, ator e palhaço poderiam nos oferecer: o encontro da arte, em sua maior potência, e de seu espectador.



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