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Como a sociedade pode saber o que fazemos dentro das enfermarias?

12 de janeiro de 2021
Tempo de leitura: 3 minutos

Vera Abbud

Atriz e palhaça. Atua como Dra. Emily, primeira integrante da Doutores da Alegria, em São Paulo, desde 1991.

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Nosso trabalho artístico é peculiar no meio das artes cênicas. Fazemos o espetáculo para um número diminuto de espectadores. Estamos nos hospitais públicos periféricos de São Paulo, dentro de quartos e enfermarias onde realizamos uma intervenção para, em sua grande maioria, duas pessoas: uma mãe ou acompanhante e uma criança.

No final do dia passamos por 60 a 100 pessoas, entre crianças, acompanhantes, profissionais da saúde e público indireto, o que equivale ao público de um teatro. Mas são situações diferentes.

No teatro temos uma experiência coletiva, onde não somos nós quem escolhemos o público, mas é o público que nos escolhe assistir. No hospital somos nós que escolhemos quem vamos visitar. E escolhemos visitar todas as crianças das alas pediátricas onde somos autorizados a circular.

Outra diferença é que no teatro a experiência é coletiva. Todo público assiste a um mesmo espetáculo. A opinião sobre o trabalho pode divergir, mas a informação a que foram expostos é a mesma. Podem perguntar ao sair do teatro: O você achou? E o debate começa. Provocamos um assunto comum.

No hospital a experiência é individualizada e restrita. O que resulta numa performance, por parte dos palhaços, muito direcionada às necessidades daquela criança naquele momento. E isso é muito especial e contundente.

A experiência, portanto, é pessoal e intransferível. Essa contundência reverbera e há anos inspiramos outros grupos a fazerem esse mesmo trabalho. Acontece que o que conseguimos mostrar é sempre uma experiência indireta do trabalho. Quem vê e interage diretamente com os palhaços é o público que frequenta os hospitais e isso torna muito difícil revelar para o público externo o que é, afinal, nosso trabalho.

Como a sociedade pode saber o que fazemos dentro das enfermarias? Conseguimos isso através das reportagens, do nosso site e mídias sociais, através dos espetáculos, fazendo pesquisas de opinião sobre o trabalho e divulgando a qualidade dos artistas que engajamos em nosso elenco.

Mas durante essa pandemia abriu-se um novo canal de comunicação para divulgar quem somos. Começamos a fazer vídeos que são veiculados nos canais da organização.

O trabalho da equipe de comunicação fez com que o trabalho fosse acessado em meses por milhões de pessoas. Essa quantidade de visualizações ao nosso trabalho de formiguinha dentro do hospital não se alcança em tão pouco tempo.

Quando entendemos, lá pelos idos de abril, que a forma de entrarmos de maneira segura nos hospitais seria através dos vídeos, abriu-se um novo terreno artístico. E foi uma grata descoberta nos aproximarmos dos universos particulares de cada palhaço e palhaça. O bom desempenho dos artistas nos vídeos vem do trabalho continuado nos hospitais que aprimoram dia a dia a linguagem do palhaço.

A vivência semanal nos hospitais proporciona um treinamento contínuo, como no circo, onde os artistas vivem em contato diário com os treinos do picadeiro. O trabalho tanto do circo quanto dos hospitais é imersivo. Trabalhamos durante longas horas, interagindo com todas as pessoas que passam nos corredores e quartos dos hospitais. E esse trabalho intensivo tende a lapidar nossa linguagem.

“A vivência semanal nos hospitais proporciona um treinamento contínuo, como no circo, onde os artistas vivem em contato diário com os treinos do picadeiro. O trabalho tanto do circo quanto dos hospitais é imersivo.” Vera Abbud

Agora, com o trabalho do palhaço veiculado através de vídeo, temos a oportunidade de revelar massivamente para sociedade o propósito da associação Doutores da Alegria.

Penso que a comunicação da organização tem feito dois milagres. O primeiro é fazer com que a organização tenha credibilidade para existir e essa credibilidade faz com que sejamos financiados pela sociedade que acredita no trabalho. Outra ação incrível é fazer com que nosso trabalho tenha uma entrada positiva e potente num mundo competitivo como o das mídias sociais.

Eu me pergunto se o fato de fazermos um trabalho só acessado com visibilidade indireta ajudou a espalhar um conceito de palhaço superficial, em que apenas o uso de um jaleco, roupas incomuns e um nariz vermelho já se configurem um palhaço.

Como conseguir passar a dimensão do jogo e as relações que os palhaços tecem em parcos minutos de reportagem? Talvez não seja possível dizer o que é palhaço ou arte, com a devida contundência, através dos recursos que a comunicação dispõe.

Vale lembrar que muitas instituições e grupos fazem o trabalho de palhaço em hospital com excelência e estão há anos investindo em formação e adquirindo experiência. Esse profissionalismo também é inspirado na experiência da Doutores, acredito.

A exposição direta dos atores e atrizes do grupo ao público através do Delivery Besteirológico talvez seja uma oportunidade de abrir um novo diálogo com a sociedade sobre o que, afinal, é um palhaço.

A diversidade parece ser a melhor resposta, pois há muitos modos de expressão possíveis dessa palhaçaria e podemos ver essa potência no Delivery. Não temos como ver os efeitos dessas visualizações ainda, mas temos essa nova janela para falar sobre arte e palhaçaria.



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Vera Abbud

Atriz e palhaça. Atua como Dra. Emily, primeira integrante da Doutores da Alegria, em São Paulo, desde 1991.


Postado em:

Cultura como direito, Quarentena, Sobre Doutores

Tags

arte, artes cênicas, canal dos Doutores no Youtube, comunicação, credibilidade, Delivery Besteirológico, hospital, palhaço, produção de vídeos, profissionalismo, quarentena, tarefa institucional, teatro

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