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As emoções que só nascem depois de uma internação

16 de janeiro de 2020
Tempo de leitura: 3 minutos

Gabriela Caseff

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Se você já passou por uma internação em um hospital, certamente tem essa memória bem viva aí dentro. É só fechar os olhos para ouvir o zumbido das máquinas, o escorregar da agulha na bandeja de metal, os passos apressados no corredor. Dá para sentir o gosto do remédio que sobe pelas veias e aquele cheiro de álcool gel que irrita as narinas. E o medo da notícia que vem pela boca da médica, da luz acendendo no meio da noite, do próximo paciente que vai resmungar no leito ao lado.

Eu sei, eu sei. Também dá para lembrar do carinho da enfermeira, da cirurgia bem-sucedida, da mãe que passou três noites inteiras ao seu lado e do dia em que a luz do sol te atingiu logo na saída do hospital. Você sorriu aliviado.

Essas lembranças tão vívidas que podemos quase tocar ficam para sempre porque – dizem os neurocientistas – a memória é construída de emoções. Em meio a um turbilhão de informações, a gente se lembra daquilo que nos causou sensações. E transformamos essas emoções em histórias compartilhadas com familiares e amigos.

Em outubro de 2016, a atriz Flávia Lopes recebeu o diagnóstico de leucemia do marido, que precisou ser internado às pressas no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), no Rio de Janeiro. Foram sete meses de tratamento. Na época, o HUPE sofria com a falta de repasse de verba do Governo do Estado. Os funcionários trabalhavam em condições precárias, com salários atrasados por mais de três meses.

“Lembro de olhar e ver pessoas que independente da doença visível e diagnosticada aparentavam portar outra doença, essa invisível, mas que mata também. Mata a gentileza, mata o afeto e a possibilidade de acreditar e recriar uma vida melhor… Essa doença invisível não estava presente só nos pacientes, cheguei a vê-la também em alguns funcionários.”, conta Flávia.

Buscando formas de se conectar com o mundo fora do hospital e tentando sobreviver ao caos social, a atriz começou a escrever textos autorais em seu Facebook. Por meio de uma escrita poética e humanizada, falava sobre a fragilidade da vida no risco iminente da morte. “No início era só uma forma que encontrei de não morrer ali, invisível, como tantos outros, mas depois que eu percebi que podia alcançar algumas pessoas, virou uma rotina e meu olhar foi expandido na direção de gestos, encontros, histórias que me atravessavam.”, diz ela.

A artista mesclou aos seus contos histórias de outras mulheres presentes no hospital, formando um coro feminino com vozes de mães, esposas, pacientes, enfermeiras, técnicas em enfermagem, cuidadoras, psicólogas e médicas.

“No início era só uma forma que encontrei de não morrer ali, invisível, como tantos outros, mas depois eu percebi que podia alcançar algumas pessoas.” Flávia Lopes

Um ano depois da descoberta da doença, o marido de Flávia conseguiu um transplante de medula óssea e se curou. As intensas emoções pelas quais eles haviam passado ainda estavam bem vivas e as histórias logo se transformaram em arte: ela criou o espetáculo “Em uma manhã de sol”. A narrativa traz uma médica que precisa escolher, entre dois pacientes com risco de morte, quem receberia a única bolsa de sangue daquele dia; uma enfermeira – sem salário – que abrigou em sua casa uma paciente de outra cidade e outra que comprou uma pomada anestésica e um esparadrapo antialérgico para um paciente.

“Em uma manhã de sol” foi selecionado em um edital da associação Doutores da Alegria para integrar o projeto Plateias Hospitalares, que leva gratuitamente espetáculos para dentro de hospitais públicos do estado do Rio de Janeiro.

Em outubro de 2019, durante a campanha do #OutubroRosa, o auditório do Hospital da Mulher Heloneida Studart, localizado em São João de Meriti, foi palco dessa história. Na plateia, mulheres em tratamento oncológico e profissionais de saúde do hospital que convivem diariamente com as dores, as tristezas, as alegrias e as descobertas proporcionadas pela luta contra o câncer.

Assim como a escrita foi companheira de Flávia no HUPE, ela acredita que a oferta de arte dentro de um espaço de saúde atua como um respiro, uma oportunidade de as pessoas romperem fronteiras invisíveis e criarem relações de afeto. Foi o que vimos na cumplicidade que se instalou quando o espetáculo terminou e sobraram os aplausos intermináveis, os olhos molhados, a fila para dar um abraço na artista.

Tem sido um desafio e tanto incorporar uma programação cultural em meio à crise instaurada na saúde pública do Rio de Janeiro, mas em setembro agora o projeto Plateias Hospitalares completou dez anos com a proposta de criar um circuito hospitalar de artes. Com uma ação contínua, apoiada em uma causa relevante para a sociedade brasileira, nesse período Doutores da Alegria conseguiu articular governos, empresas, artistas, hospitais e comunidades para realizar mais de 600 apresentações para 110 mil pessoas.

Levar um cortejo musical para idosos acometidos pela hanseníase em um antigo hospital-colônia, visitar uma ala de pacientes com tuberculose e ver uma estreia de espetáculo acontecer numa enfermaria foram alguns dos momentos emocionantes que marcaram a história do projeto. E certamente marcaram também a memória de muitas crianças e adultos… haja memória pra tanta emoção!



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