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A próxima parada

8 de Janeiro de 2019
Tempo de leitura: 1 minutos

Doutores da Alegria

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Durante as nossas visitas de cara limpa, que é quando interagimos sem maquiagem, aprendo muitas coisas da Medicina com profissionais de saúde. Há uns três meses, numa dessas visitas de cara limpa, o pequeno H. estava de volta à UTI, e a notícia não era das melhores.

H. já tinha ficado internado na UTI com seu irmão gêmeo, que teve alta um tempo depois. Soubemos que o pequeno tinha um exame marcado fora do hospital, um exame muito aguardado pela equipe médica. Acontece que, ao sair, ele teve uma parada que durou bastante tempo, o que deixou sua condição mais grave. Lembro-me da médica nos explicando todo o quadro do garoto e a força na sua fala me comoveu.

Nos encontros com o menino, pouca interação se dava. Mas após esse ocorrido, notamos que havia uma expressão de dor em seu rosto, um incômodo. Perguntávamos para as médicas se era uma expressão voluntária e elas nos diziam que agora ele estava assim, que a expressão às vezes minimizava, mas por vezes ficava bem forte.

Uma expressão de dor. Grande. Ele também tinha grande dificuldade de respirar.

Os meses se passaram e H. pregou mais um susto: outra parada. E agora teve de ficar entubado. Nossa preocupação aumentou. Durante as visitas de cara limpa, ao entrar na UTI seguíamos preparados para qualquer notícia que pudessem nos dar a respeito dele.

Para a nossa surpresa, numa manhã soubemos que ele estava se preparando para ir para casa. Sua mãe estava muito feliz e perguntamos se ela sabia manejar essa maquinaria toda. Ela estava preparada! E ele estava tão lindo! Ah, e não fazia mais aquelas expressões de dor!

Semana seguinte, ele voltou. Teve uma parada em casa.

Passamos a ficar cada dia mais preocupados. E em novembro, durante a passagem de plantão, soubemos que H. tinha tido morte encefálica e que estava aguardando o laudo para que pudessem desligar os aparelhos. Estávamos saindo da UTI, de cara limpa, quando encontramos com a mãe. E nos emocionamos juntos. Dei um abraço.

À tarde, na visita já como palhaços, nos encontramos novamente.

– Vim me despedir, eu disse, e ela nos autorizou.

Naquele silêncio que não cabia nenhuma palavra, resolvemos cantar. Cantamos. E fomos saindo ao som da música, levando o som para o hospital. Cantando rumo à nossa próxima parada.

Paola Musatti, mais conhecida como Dra. Manela, escreve do Hospital M’boi Mirim, em São Paulo.



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Você o filme o Amor é contagioso do Path Adams queria fazer igual?

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