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A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa

21 de junho de 2017
Tempo de leitura: 4 minutos

Doutores da Alegria

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Em pleno mês de São João e com a inspiração em alta, depois do cordel de despedida dos profissionais de saúde, os palhaços levaram aos hospitais do Recife uma criação inusitada.

GAC-PROCAPE-   Lana pinho-79

Trata-se de “A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa”. Criado por Arilson Lopes e encenado pelo elenco pernambucano do Doutores da Alegria, o cordel tem sido motivo de aplausos e gargalhadas nos hospitais. Pra quem não sabe, a literatura de cordel é um gênero literário popular que se dá na forma de rimas cadenciadas. Olha só um trecho com a Dra. Baju e o Dr. Marmelo e acompanhe, abaixo, o cordel inteiro. 

 

Cordel São Joãoilustração: Luciano Pontes | produção: Nice Vasconcelos

 

Bom dia, meninada
Meu sinhô, minha sinhora!
Puxe o banco e sente logo
Se avexe, sem demora
Porque tô aqui doidinho
Pra contar essa história

Tanto tempo encalhado
Marmelo se aperriô
Fez promessa pra Antônio
O santinho protetô
Pra arranjar casamento
E acabar com sua dor

Em troca daria ao Santo
Na festa de São João
Uma peruca novinha
Coisa fina, de barão
Contanto que em sua busca
Não houvesse confusão

É que Marmelo era frouxo
Feito chapa sem Corega
Tinha medo de injeção
De barata, de pereba
Mas dizia que com ele
Não tinha choro nem vela

Amuntô em Dud Grud
Seu jumento Alazão
Partiu no mundo sem rumo
Seu guia era o coração
Encontrou três faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão

Contou ao trio seu dilema
Que se apressou a falar
Entoou o seu refrão
Ô ô xá lá lá lá lá
E disse: “Quem tu procura
Mora na casa acolá”

Marmelo avistou de longe
A casinha de Baju
Imendaram as fuxiqueira
“Uma flor de mandacaru
É uma moça aprumada
Dava certinho mais tu”

Ele arriô de Alazão
Se aproximou de fininho
E ao chegar no pé da porta
Se assustou com um passarinho
Que fugia da donzela
Ía depressa pro ninho

Caiu de bunda no chão
Bem na frente de Baju
Que apontou o estilingue
Pra ele, não pro anum
O coitado atrapalhado gritou
“Vim casar com tu”

Ela nem contou conversa
Aceitou o compromisso
Se afeiçoara a Marmelo
Seu cabelo de ouriço
O seu nariz engraçado
E seu ar de pouco juízo

Nasceram um para o outro
Como o sapo é pra jia
Como o leão pra leoa
Como a torneira é pra pia
A baleia pra baleia
O Tonico pro Tinoco
E o riso pra alegria

Baju correu lá pra dentro
Voltou trazendo um vestido
Branco, já amarelando
De mofo um pouco fedido
Pendurou pra levar sol
Tudo certo pro casório
Só faltava o pedido

“Ôxe, outro?” – Ele indagou
Ela explicou então:
“Oficialize o pedido
Peça a meu pai minha mão
Ele saiu, volta já
Dele já ouviste falar
É Mircolino Lampião”

Ouvindo o nome do sogro
Marmelo pôs-se a tremer
Seu cabelo arrupiô
Se preparou pra correr
Fingindo pediu: “Tem água?
Queria tanto beber…”

Ela atendeu seu pedido
E foi lá dentro buscar
Marmelo desesperado
Não parava de suar
Se aproveitou do momento
Amuntô-se em seu jumento
E fugiu pro Arraiá

Atrapalhado, Marmelo
Se enganchou no vestido
Pendurado no varal
Na pressa o levou consigo
Pensou: “Me visto de noiva
pra escapar do perigo”

Baju voltou com a água
E tudo se apresentou
O noivo tinha fugido
Feito o anum que voou
Pro pai contou num bilhete
E partiu feito foguete
No rastro do seu amor

No Arraiá era dia
De fogueira de São João
Tudo pronto pra festança
Era certa a animação
Marmelo, agora de noiva,
Se escondeu no salão

Baju chegou em seguida
Reconheceu Alazão
Pensou “Tô pertinho dele
Esse sujeito cagão
Que tem medo do meu pai
Mircolino Lampião”

Parou no meio da praça
Conteve a respiração
Não sabia o que fazer
Qual seria a solução
Encontrou com as faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão      

– “Mulé, que foi? Fale logo!”
– “Adoro uma confusão”
– “Tô procurando um sujeito!”
– “Sujeito tem de montão”
– “Tem gordo, baixo, comprido”
– “Tem até um de vestido”
– “De noiva, num visse não?”

Ouvindo isso correu
Deixou o trio sem ação
Procurou o Rei do Milho
Que tava na ocasião
Era amigo de infância
Quase irmão de criação

Pediu a ele emprestado
Camisa, calça, gibão
Ela se vestiu de noivo
Tinha achado a solução
Casava com a noiva Marmelo
E acabava a confusão 

 

O Rei do Milho cedeu
Aos caprichos de Baju
Emprestou a melhor roupa
“Óia, foi feita pra tu!”
Lui é o nome dele
Vibrava com o buruçú

Ela foi de um em um
E nada de encontrar
Perguntou pras fofoqueira
As espiãs do lugar
Que foram logo apontando:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Aquele que tu procura
Correu pro lado de lá”

De repente, ouviu-se um grito
De voz conhecida por lá
Mircolino Lampião
Chegava pra clarear
Ía encontrar o danado
No escuro que tivesse
Pra fazer ele casar

Mircolino assim cantava:
“Ói eu aqui de novo xaxando
Ói eu aqui de novo para xaxar”
Todo mundo acompanhava
Cantava e procurava
Ninguém podia parar

O pai escutara a fofoca
Tinha lido o bilhete
Já sabia a trama toda
Da palha ao alfinete
Praquele que o ajudasse
Ele pagava um sorvete

Esse era um homem bom
Brincalhão, era um ator
Ía gritar a quadrilha
Foi pra isso que chegou
Aí entrou na esparrela
Pra ajudar sua flô

Baju foi até seu pai
Disfarçada de menino
Se revelou só pra ele:
“Tenho um plano, segue o tino,
Sei onde tá Marmelo
Vou selar nosso destino”

Arrudiaram o salão
Até num canto encontrar
Uma noivinha amuada
Nem sabia disfarçar
Baju falou para o pai:
“Olha o que eu achei aqui!”
Ele pôs-se a interrogar

– “Como é teu nome?”
– “É Marmela, mas isso só pro sinhô”
– “Mulé de bigode, Marmela?”
– “É buço! Faça o favor!”
– “E esses cabelos na perna?
Faz tempo que depilou!”
– “Eu sou assim cabeluda!
É de família, um horror!”

– “Não adianta enganar
Eu já sei quem é você!”
– “E quem sou eu? Diga não!
Tenho medo de morrer!”
– “Pois se seu medo for esse
Vamo logo resolver!”

Baju se jogou no meio
Entre o pai e o seu amor
Tava tudo combinado
Só pra fazer o caô
Ela rogou pela vida
Daquele que a enganou

Marmelo se emocionou
Com a coragem de Baju
Disse: “Êpa, corri com medo
Do teu pai, num foi de tu!
Caso contigo agorinha
Te procurei norte a sul”

“Se ele poupar minha vida
E aceitar nosso amor
Pago a promessa pro Santo
Num sou de dever favor
E a festa acontece
Com alegria e fervor”

Santo Antônio apareceu
Na festa de São João
Trouxe São Pedro consigo
Cobrou peruca e quentão
Marmelo pagou a dívida
E acabou-se a discussão

“Solta o rojão!” – gritou Lui
“E bota esse trio pra tocar”
As fuxiqueiras gritaram:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Forró só se for agora
Pegue seu par, vem dançar!”

Dud Grud entrou na roda
Já não era mais jumento
Agora ele era fogueira
Um bom papel pro momento
Se acendeu tocando fogo
Nos cabelo que trazia
No sovaco fedorento

Esse causo assim contado
Dá até pra encenar
Eita, tive uma ideia!
Vamo levar pro hospitá
Vai ser bonita essa peça
As criança vão gostar

Nós é Dotô da Alegria
Tu já ouvisse falar?
Sim! Da besteirologia
Uma ciência arretada
Depois te conto, ôto dia
Hoje o assunto é São João
São Joãozim, como eu diria

Vixe, o traque estourô
Tenho que subir agora
Até logo, meninada!
Meu sinhô, minha sinhora!
Já demorei o bastante
Desenrolando essa história
É tudo coisa inventada
Mas tá no sangue, é memória

Cresci menino com isso
Com a festa de São João
Colheita, comida de milho,
Quadrilha, forró, tradição
Vi tudinho aqui de cima
Prazer, me chamo Balão!

Eita, tá ouvindo?!

“O Balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração”

 

GAC-PROCAPE-   Lana pinho-100



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Arilson Lopes, cordel, literatura de cordel, São João

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Martha Tereza
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Martha Tereza
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Lindo, muito bonito, Parabéns !! vocês são a alegria do hospital, continuem sempre. Abraços de uma admiradora do trabalho de vocês

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