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A menina que desenhava cavalos

7 de outubro de 2019
Tempo de leitura: 2 minutos

Nereu Afonso

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A primeira vez que a vimos foi em uma segunda-feira. Ela estava sentada na cama, calada, oscilando abruptamente de um lado para o outro.

“Surto psicótico”, nos disse a enfermeira durante nossa coleta de informações sobre o estado de cada paciente, antes de começarmos o dia de trabalho. Quando voltamos, mais tarde, já como palhaços, a imagem da menina era a mesma: uma severa desconexão com a realidade embalada pelo desassossego de seu estado psíquico e pelos remédios que tentavam aquietar tal estado. Nossa experiência em Pediatria – e mesmo em alas psiquiátricas junto a outros projetos artísticos – não nos imuniza nunca da angústia de tais situações.

Ao lado da menina estava sua mãe, visivelmente habituada com a ocorrência frequente dos surtos na filha de 12 anos. E talvez fosse justamente essa frequência que justapunha nela aquela contraditória aparência de resignação e tormento.

Tentamos algum contato, infrutífero, com a menina, mas timidamente correspondido pela mãe. A mulher, em um determinado momento, nos solicitou para uma foto. Um mal disfarçado pudor de nossa parte revelou um instante de incerteza. A menina iria aparecer na foto junto com a gente? Ou, por instinto de salvaguarda, ela estaria ausente da foto para ser, em um futuro momento de melhora, apenas a espectadora da imagem dos palhaços que um dia vieram visitá-la?

A mãe, sem expressar palavra alguma, após tirar o retrato só dos palhaços, nos fez entender que não vinha inconveniente em que a filha, mesmo em estado de transtorno, protagonizasse algumas fotos ao nosso lado. Tacitamente autorizados, fizemos uma série de poses, em diversas configurações.

A mãe, sabiamente, saberia escolher o que mostrar para a menina no futuro.

dois palhaços interagindo com uma criança e sua mãe dentro da UTI de um hospital

Dois dias depois, voltamos àquele mesmo lugar. Uma outra menina de 12 anos ocupava aquela mesma cama.

Ao ver nossa aproximação, ela interrompe o desenho que está fazendo em uma folha avulsa e nos cumprimenta com uma voz tranquila.

– Oi.
– Oi. A gente pode ver o que você tá desenhando?

A menina vira a folha em nossa direção e revela um magnífico cavalo, completamente realista, não fosse a crina e o rabo flamejantes.

– Ele tem nome, esse cavalo?
– Não, eu não dei nenhum nome pra ele.
– Mostra seu caderno pra eles, pede a mãe à filha.

A menina se levanta calmamente para pegar o caderno na mesinha ao lado da cama. Ela volta a se sentar, abre o caderno e nos mostra, folha por folha, uma série de cavalos, todos com especial atenção à cabeleira da cabeça e do rabo.

– Caramba, que lindos. Você desenhou olhando um modelo ou olhando sua imaginação?
– Minha imaginação.

E então a menina para um instante, como se realmente olhasse pra dentro de si e diz:
– Eu vi a foto.

Sabíamos que ela não se referia a nenhuma suposta foto de cavalo que lhe teria servido de inspiração.
– Minha mãe me mostrou a foto com vocês, não é mãe?

A mãe, sem expressar palavra alguma, nos fez entender que a filha, agora uma “outra menina”, em melhor estado do que o da segunda-feira, se conectava muito bem com a realidade à sua volta.

Não sabemos se a menina aparecia ao nosso lado na foto escolhida. Mas, de qualquer modo, a garota pareceu perceber que, durante suas “ausências”, alguém, acreditando em seu futuro, se preocupava em lhe retratar o presente.

Mesmo que esse presente fosse uma mera fotografia com palhaços.



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Fabio Sebadelhe
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Fabio Sebadelhe
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Nossa que lindo… estou iniciando por caminhos próprios na palhaçaria, e estou me encontrando e me refazendo a cada dia. Sou acadêmico de psicologia, 2 período, e vou levar esse trabalho para minha formação. Eu gostaria de alguma literatura sobre o assunto, principalmente sobre o que pode e o que não se pode fazer em uma visita do d. Palhaço.

Mariza
Visitante
Mariza
Visitante

Maravilhoso trabalho. Deus os abençoe sempre

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